Conversando com qualquer pessoa que não seja professora sobre a educação e a escola sempre sou questionada em minha prática pedagógica e as vezes sou rotulada como sonhadora. A escola virou solução para tudo. Para a família que tem que trabalhar e não tem que cuide dos filhos, para miséria das pessoas que vem em busca de alimento, via merenda escolar, para os pais da classe média que não conseguem entender e dialogar com seus filhos; deixa que a professora resolve. Saímos da faculdade, muitas vezes com a certeza de que não estamos preparados para o magistério, para cair em uma realidade que conhecemos da televisão e do ouvir falar, mas que é muito diferente das imagens apresentadas. Num primeiro momento, em meio à confusão, desorganização e bagunça da sala de aula, nos perguntamos sobre o que fazer. Como interagir com essas crianças que estão depositadas naquele espaço depredado? Criticamos nossos colegas e simplificamos posturas e atitudes, embora funcionem pouco também em nosso caso. Culpamos a direção, o sistema, os pais, o governo, a Igreja, ou sua ausência. Escrevemos projetos, participamos de congressos, discutimos nos HTPCs da vida e formulamos propostas. Os anos passam, mas a situação não. Não se trata de ter que revisar a cada ano o conceito de desrespeito. Não se trata apenas de indisciplina. Não se trata apenas do colorido vermelho na decoração de nossas cadernetas (cada vez mais inúteis…). Trata-se de um sentimento de frustração e desilusão. Frustração, por ver a aprendizagem escorrer pelos dedos e não saber o que fazer e o que mais inventar para tentar reverter o problema. A Pedagogia de valores, a Progressão Continuada, a propaganda que o governo do Estado de São Paulo faz sobre a educação e o “bônus” concedido aos funcionários. Nada disso serve de resposta sobre o que fazer quando recebemos um aluno não alfabetizado na 7ª série do Ensino Fundamental. Valores? Que tipo de valores ensinamos, quando amontoamos 40 alunos em uma sala depredada, em meio as carteiras com mais de 20 anos de uso? Progressão? Que tipo de incentivo, de adaptação do conteúdo à realidade fazemos quando os alunos percebem que mesmo que não façam serão aprovados? Desilusão. Desilusão, por perceber que dentro da sala de aula somos uma voz solitária, esquecida e abandonada pelo Estado, pela família, pela escola e principalmente pelos alunos, que já perceberam as regras do jogo e sabem que com o ensino do jeito que está não adianta perder tempo com escola ou estudo, pois seria mais útil construir relações de amizade para tentar se arranjar na vida com jeitinho, com a ajuda dos amigos. Sem sonhos e com os pés no chão, talvez essa seja a única utilidade da escola nos dias de hoje: entreter e fazer amigos. O que dizer para um estudante que até presta atenção no seu discurso de importância do estudo, mas ao término da fala responde: “Professora, Não esquente a cabeça com a gente.” Por que se preocupar, se ao realizar qualquer atividade de leitura e interpretação esse mesmo estudante comenta: “Tenho que ler tudo isso? Prefiro entregar em branco…” Perdemos uma geração inteira. Pessoas jovens e viciadas em esperar dos outros a solução dos seus problemas. Estudantes, que em toda sua carreira, nunca precisaram estudar e que ao final do seu período na escola sabem que têm pouquíssimas chances de se estabelecer com dignidade. Depoimento de uma professora cujo idealismo e as ilusões foram soterrados pela realidade
NA SOLIDÃO DA SALA DE AULA SUPERLOTADA
27 Abril 2009 por professortemporario
Publicado em REFLEXÃO | 11 Comentários
11 Respostas
Deixe uma resposta
Páginas
-
Comentários
-
Publicações Recentes
- CONTEÚDO DA PROVA DOS PROFESSORES TEMPORÁRIOS (OFA) DE SÃO PAULO *** EDIÇÃO COMPLETA E ATUALIZADA***
- MOBILIZAÇÃO DE PROFESSORES DO ESTADO DE SÃO PAULO
- UMA VIDA EM UMA SEMANA
- A CAIXA PRETA DA EDUCAÇÃO NO ESTADO DE SÃO PAULO (edição atualizada)
- Regras para a Prova dos professores OFA de São Paulo
- Urgente – Professores Categoria F que não têm aulas atribuídas neste momento.
- A REESTRUTURAÇÃO DO PLANO DE PROMOÇÃO SALARIAL DOS PROFESSORES DA REDE ESTADUAL DE SÃO PAULO (Projeto de Lei Complementar 29/2009)
- (NOVO) CADASTRAMENTO DE PROFESSORES CANDIDATOS À DOCÊNCIA NA REDE ESTADUAL DE SÃO PAULO EM 2010
- ESTADO DE SÃO PAULO LANÇA CARTILHA CONTRA INDISCIPLINA E VIOLÊNCIA NA ESCOLA
- Vale a pena?
- PROFESSORES DAS CATEGORIAS “L” E REGULADOS PELA LEI 1093/09
- MUDANÇAS NO ENSINO MÉDIO
- ADIADO O CONCURSO PÚBLICO PARA PEB II EM SÃO PAULO
- O que diz a Secretaria de Educação sobre a reposição de aulas em São Paulo?
- Rede pública de ensino começa a avaliar professores
Pois é professora…acho que quando chegamos a este ponto do discurso, mostrando nossa desilução, desgosto, frustação e a voz tão embargada pelo desânimo, talvez seja a hora de mudar de profissão e ser feliz!
Se não for esse o caso, arregace as mangas, não espere nada de ninguém, peça ajuda divina e vamos trabalhar.
Um abraço!!
Noemi
Caramba, muito legal esse blog!
Vou adicionar nos meus favoritos do iGoogle
Abraços,
Miguel
boa tarde!
Sou estudante de Jornalismo pela Uanerp (Universidade de Ribeirão Preto), pretendo fazer uma matéria sobre professores temporários para o nosso JONAL DO ONIBUS (jornal laboratório), gostaria muito que entrasse em contato comigo…
ABRAÇOS
Muito interessante o BLOG!
Esta professora comentou um dado particular de aluno da 7ª série. Acredito que neste ponto, não há mais o que fazer porque o aluno já tem anos deste círculo vicioso de não estudar e passar. Onde está o problema? Acredito que nas séries iniciais. Já lecionei para alunos de ensino médio em escola particular e alguns tinham esta mesma postura hostil, logo ela não é prerrogativa de aluno da escola pública. E trabalhei com crianças de ensino fundamental da escola pública que gostavam de aprender. Então não dá para não cobrar dos colegas das séries iniciais que inculquem prazer em estudar nos seus alunos. Conheci muitas professoras de séries iniciais de escola pública que levam muito a sério seu trabalho e obtêm ótimos resultados. Conheço também aquelas que deixam tudo correr solto sem o mínimo stress, verdadeiras irresponsáveis. Isto é obrigação da direção fiscalizar e cobrar. Por que cobrar só o professor? A direção também deve ser cobrada e responsabilizada.
Os pais também deveriam ser mais responsabilizados pelos filhos que colocam no mundo, seja por sua alimentação ou educação, pois o professor é responsável pelo aprendizado formal. Mas o aluno não vem mais de casa sabendo que não deve depredar, então material (como carteiras) que poderiam durar bem mais de 20 anos em bom estado, tem que ser substituído com muita frequência: é dinheiro jogado fora porque não há respeito pelo que é público. Dinheiro que poderia ser utilizado para acréscimos, não substituições. Tudo se deprecia com o tempo, mas cuidar bem das coisas inanimadas não é ser “materialista” como acusam alguns, é questão de educação que vem do berço.
A infelicidade de muitas destas crianças é um sentimento de não serem bem vindas, pois são empurradas da casa para a escola e vice-versa. Em nenhum lugar elas aprendem limites, e suas vidas tendem a cair, portanto, na indeterminação.
Na falta de pais que cumpram suas obrigações, é imperativo contar com os professores das séries iniciais. Se esta oportunidade for perdida, nada haverá a ser feito, a não ser contemplar o aumento do fosso social.
Se pensarmos bem, alguns teóricos que defendem a escola em período integral justificam esse modelo justamente por retirar a criança do convívio dos pais o maior tempo possível… é polêmico, mas é um ponto de vista que faz sentido…
Olá, sou professor eventual em uma escola pública, e queria compartilhar esse sentimento de derrota, e fazer algumas perguntas que eu me faço constantemente e a cada dia tenho uma resposta diferente.
Vivemos em uma sociedade que não pensa em seus valores; aos olhos de uma boa parcela, eles estão na roupa da moda, no comentário sobre a vida alheia, no dinheiro no bolso, na sexualidade exposta. Não há debates calorosos sobre política ou cultura. Os debates estão em torno do que a mídia expõe: aquecimento global, escândalos no Senado Federal, futebol, gripe “suína”, sexo. A perspectiva está sempre no futuro, então segundo eles, por que se preocupar com o amanhã se o amanhã acaba depois de amanhã? O que poderíamos esperar das crianças cujos pais (e até professores) cresceram dentro deste contexto? Que leriam Reinaldo Arenas, Juan Rulfo, Cortázar, Guimarães Rosa? Que teriam curiosidade para saber sobre a Guerra Civil em Angola, a independência da Índia? Que assistissem em casa filmes do Gláuber Rocha, do Alejandro G. Iñárritu, do Tomás G. Alea? Não. São os professores que podem mostrar essas coisas, já que não são temas da mídia. Inclusive, a própria mídia pode ser questionada e ser um objeto de estudo; vai da criatividade e da disponibilidade material que cada um possui.
Mas as classes estão super-lotadas e a maioria dos alunos não quer saber de ler, escrever, assistir aulas. Sim, com certeza. Sou estudante e também não suporto ver certas coisas na faculdade; tem muito professor despreparado e que não consegue trasmitir um saber. O que fazer? Como fazer para desequilibrar o analfabetismo em uma 7ª série? Como fazer com que os estudantes se interessem pelos estudos? Bem, colocarei aqui o que considero coerente: o professor não é despertador para despertar o vontade de estudar no aluno; o professor não é padre para converter alunos ruins em bons; o professor não é um dos reis taumaturgos de March Bloch, para curar as doenças que padecem a Educação; acredito que o professor tem que ser sincero com os alunos no sentido que ele está na sala preocupado com quem quer estudar, e quem não quer, não atrapalhe os outros. Na maioria das salas que dou aula, o problema está em um 5% que agita e mais uns 20% que dão apoio aos agitadores. Daí pode contagiar a sala. Os agitadores fazem o que fazem porque tem sempre uns “maria-vai-com-as-outras” que lhe dão cobertura. Se o professor conseguir fazer com que o próprio agitador se veja fazendo um papel ridículo, é uma grande conquista. E se esse problemático ver que você está dando um suporte com quem está a fim de estudar, talvez ele veja que as coisas não eram do jeito que ele pensava. E com relação aos analfabetos, se eles realmente quiserem ajuda, ajudem. Não os obriguem a fazê-los exercitarem se não quiserem. Vou deixar de ajudá-lo só por que ele não quer? Não é só. Tem gente que bebe adoidado; se ele quiser parar de verdade e procurar ajuda, é porque deu um sinal de mudança. Um sinal.
Não queria dar soluções para os problemas do cotidiano escolar; as questões que coloquei são apenas uma humilde observação particular. A solução para os problemas na Educação no Brasil depende de uma organização civil de grandes proporções; mas com esse individualismo que impera entre professores, diretores e pais é difícil chegar a um acordo. Pior para todos; o que resta, num primeiro momento, é conter alguns problemas dentro da sala de aula mesmo.
O pior ainda está por vir. Já pensou quando os nossos alunos forem pais? Como serão os filhos? Como será a escola? como serão os professores? Parece Apocalipse…
Alex,
vou pegar um gancho no que vc disse: 5% de agitadores, 20% que lhes dão apoio = 25%. Mais 60% de omissos. Sobra uma minoria de 15%, às vezes menos, às vezes nada.
Conheço gente que é contra a escola gratuita sob o argumento de que não se dá valor para o que não se paga. Na sala de aula, os alunos dão valor para aquilo que eles pagam: o celular caríssimo, as revistinhas de horóscopo e sobre novelas. O professor não é pago por eles: por que valorizá-lo?
Se as escolas fossem todas pagas, mal existiriam escolas no país. Sempre acreditei que a escola deveria ser gratuita para que se possibilite a conscientização das populações. Mas como vc disse: os alunos querem? Eles não querem nada que saia de seu minúsculo mundo de futebol, novela, BBB e filmes trash que pipocam na TV. Por conta disso, estou revendo meus conceitos.
Já escutei que o professor não pode desejar realização profissional na sala de aula, que cursar mestrado e doutorado é pura vaidade pois nada disso ensina o professor, pois este, hoje, tem que entrar em acordo com os alunos para saber o que eles querem e trabalhar apenas com os desejos deles!!! Então a escola perdeu sua função! O professor não tem razão de existir, pode-se colocar qualquer um na sala de aula para fazer isso, não precisam exigir licenciatura, horas de estágio, conhecimento numa determinada área, que se siga um currículo mínimo. Pode ser qualquer um! Mas precisariam mudar o nome, e não chamar de escola. Ou ensinar uma única coisa antes de “trabalhar com os desejos”: que escola vem do grego “skhol” e que significa diversão e ócio. Neste caso, o ócio da pior espécie.
O que serão os filhos destes alunos? Boa pergunta! O que será do futuro deste país? Parece, não, já é o apocalipse.
Quanto ao estado do mobiliário das escolas, vai muito da educação dos alunos. Na década de 70, quando entrei na escola, estudei numa escola particular fundada na primeira década do século XX que tinha carteiras do tempo da fundação da escola e todas inteiras. Se o aluno da escola particular cuida do patrimônio, por que o da escola pública não pode? Se naturalmente joga o lixo no lixo, por que o da escola pública não pode? Por que o estado fornece material se eles compram cadernos caríssimos para arrancar as folhas indiscriminadamente? O que está acontecendo de errado? Antes o governo repassasse este dinheiro mal gasto em material para o salário do professor, comprando, assim, a tolerãncia deste.
O professor costuma ser um idealista que quer compartilhar seu conhecimento, mas chega um momento em que a frase bíblica “não atireis pérolas aos porcos” se faz soar.
Que tipo de escola queremos? Que tipo de aluno? Que tipo de pais?
Hoje é consenso dizer que a escola pública se tornou um depósito onde são jogados os filhos. A continuar neste ritmo, depósito será elogio, ela está se tornando uma fossa negra. E onde entra a responsabilidade dos pais? Cobramos do governo que pouco ou nada faz, achando que a população escolar é como era há 50 anos cujos pais querem um futuro para os filhos. Nada mais falacioso. A responsabilidade da imensa maioria dos pais se resume a inscrições em programas assistencialistas e a cobrar o professor para que dê presença ao filho ausente para não perder o benefício.
Enquanto o governo não der o braço a torcer, enquanto não encontrar mecanismos de cobrança aos pais, a situação só vai piorar. E eu duvido que melhore, pois qualquer coisa que exige responsabilidade acarreta perda de votos.
Hoje, estes adolescentes são problema nosso. Amanhã, da polícia e da sociedade cada vez mais acuada.
E, será que isso é por acaso?
A estrutura política que parasita o Estado se mantém única e exclusivamente pela falta de consciência da população.
Escola de qualidade? Isso interessa aos que hoje tem sido eleitos, independentemente de suas histórias?
Sinceramente, acreditamos que como nos programas assistenciais do governo não devemos acender velas boas para defuntos ruins, pois os usuários beneficiados por esses programas não são o verdadeiro foco. São pessoas que para o mercado não tem muita serventia e que mesmo que se tenha a ilusão de capacitá-las, não correspondem às expectativas e necessidades impostas pelo crescimento econômico do país.
O foco desses programas está nos filhos e netos desses beneficiados, na perspectiva de que serão mais preparados e úteis que seus pais. Por isso a regra estabelece a permanência dos filhos na escola para receber o programa.
No caso específico da escola, fica o pensamento: a escola é para todos mas, o estudo e o sucesso não. Depois da progressão continuada e de uma série de políticas educacionais desastradas somos obrigados a pensar de maneira ampla, no todo, e considerar que o foco de nossas diussões não está naqueles alunos semialfabetizados que frequentam a 8ª série. Esses alunos, infelizmente, seguirão o caminho assistencialista dos pais e talves, um dia, com muito esforço, consigam recuperar uma parte do que perderam.
O foco de nossa discussão está nos alunos dos anos iniciais. Com ações firmes e previstas em lei como responsabilização das famílias por meio de ofícios escritos ao conselho tutelar ou juizado da infância poderemos iniciar uma moralização da escola.
Sou aluna do 5º ciclo de direito e fiz a minha inscrição na DE. Segundo o q tem sido comentado séra muito dificil q um estudante consiga dar aulas. È isso mesmo? E será possivel q mesmo pegando aulas com o concurso em março eu perderei as aulas?
Margareth
Os estudantes e bacharéis só assumem aulas se, e somente se, não houver professor licenciado disponível para as mesmas. Para o concurso, podem até fazer, mas se aprovados serão desclassificados ao apresentar a documentação, que para professores, dentro do que estabelece a Lei Federal nº 9394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), é exigido o diploma de Licenciatura Plena na disciplina específica para provimento de cargo efetivo aos professores concursados após a mesma.