Era uma vez, em uma realidade muito, muito distante da nossa, um país contraditório.
Nesse país, governado por um rei idoso e muito popular, existia uma enorme desigualdade social. Grandes comerciantes e empresários circulavam pelas cidades em suas carruagens, enquanto pessoas famintas pediam esmolas nas calçadas.
O rei idoso, que era muito querido por essas pessoas, assumiu o governo com a promessa de melhorar a vida do povo. Mandava distribuir comida aos famintos e falava à população em uma linguagem fácil.
Embora soubesse que uma grande parte dessa comida era perdida, desperdiçada e mesmo roubada pelo caminho, o rei ficava feliz por acreditar que a vida do seu povo melhorava. (E de fato melhorava, já que o pouco que chegava ao estômago dos que precisam é muito para saciar a fome dos famintos).
Acontece que esse país era divido em muitas províncias e feudos desiguais. Em sua organização propositadamente limitada, as províncias e os feudos não se entendiam com o rei. Estavam mais interessados em decidir, nos bastidores dos banquetes, quem deveriam apoiar para a sucessão do rei idoso.
Tentando cativar o povo que gostava do velho rei, os novos candidatos (alguns deles governadores provinciais) procuravam demonstrar sua benevolência e capacidade.
Se o velho rei ordenava que se fizessem escolas e que se pagassem professores para sanear a ignorância de seu povo, as províncias faziam coisas parecidas, porém com nomes diferentes, para parecer novidade.
O governador da província mais rica daquele país, que tinha a ambição de ser o rei, resolveu tomar à dianteira sobre seus concorrentes. Criou uma imagem de homem forte e decidido, que resolve os problemas com eficiência e que, quando não consegue resolvê-los, corta as cabeças dos funcionários que não cumpriram suas ordens.
Percebendo que a ignorância do povo de certa forma ajudava o seu governo e evitava as reclamações, o poderoso governador não se preocupava muito com o ensino público. Já havia muitos anos que as crianças freqüentavam as aulas em escolas em ruínas e a povo não reclamava mais, pois recebia a comida distribuída pelo rei.
Entretanto, os grandes mercadores e empresários que freqüentavam o palácio real reclamavam que seus negócios estavam indo mal, pois seus empregados e servos não conseguiam fazer o trabalho direito.
O velho rei, que se limitava em distribuir comida ao povo, e o poderoso governador provincial, que não aceitava fazer o que o rei pedia e sempre “inventava” o que rei já tinha sugerido, só para parecer novidade; ambos não se preocupavam efetivamente com a ignorância do povo, a não ser com o fato dessa ignorância prejudicar os negócios do país.
O velho rei, tentando preparar o terreno para seu herdeiro, anunciou que abriria os cofres do palácio imperial e que mandaria construir estradas, hospitais e escolas pelo país, mas o tempo passava e essas obras não saiam do papel.
Para aplacar a ignorância do povo, o rei mandou aumentar o salário dos professores, em um valor que as províncias mais pobres diziam não poder pagar.
Mandou também construir escolas para formação de professores, muitas com cursos por correspondência. Criou uma prova para avaliar a ignorância do povo e assim definir o que fazer para “resolver” o problema.
O poderoso governador não ficou atrás. Em vez de usar as informações obtidas com a prova do rei, criou a sua própria prova. Não se preocupou em aumentar o salário dos professores da província, mas colocou sobre eles a culpa pela ignorância popular.
Tentou provar para o povo a falta de competência de seus professores, divulgando que esses realizaram provas e que não tiveram conhecimento para serem aprovados. Anunciou também ao povo que distribuiu ouro aos professores, mas a maioria desses não viu se quer o brilho desse ouro. Proclamou à população, como se fosse a maior novidade do todos os tempos, que construiria uma escola de formação de professores para reciclar seus despreparados e descomprometidos docentes, também por correspondência.
Do alto de sua benevolência, o poderoso governador mandou distribuir livros para ensinar o seu povo. Livros “cuidadosamente” escolhidos por seus representantes diretos, que traziam informações geográficas “precisas”, sobre os territórios do império e dos países vizinhos, em uma linguagem “totalmente adequada” à compreensão de todo povo (inclusive das crianças da 3ª série). Livros que em sua linguagem precisa difundiam “valores nobres”, relativos à família, à ética e à necessidade de se aumentar a população pela procriação.
O velho rei, cansado após muitos anos à frente do seu país, estava satisfeito com o que fizera pelo seu povo, com a distribuição pura e simples de comida. Afinal, do que mais precisaria essa população ignorante?
Recebendo ajuda direta do governo imperial essa população seguiria com sua vida simples e pacata. Não importava se seus filhos não estavam aprendendo nada de útil nas escolas. Não importava se esses mesmos filhos talvez não desenvolvessem a capacidade de sobreviver sozinhos, sem depender da bondade do rei. Desde que conseguissem se cadastrar para receber o auxilio do governo…
Até porque os professores, pessoas que só sabem criticar a maneira como as “pessoas de bem” educam os seus filhos, só servem mesmo para incomodar o sossego das famílias, enviando bilhetes e convocando-as para participar de reuniões enfadonhas e cansativas, como se as famílias não tivessem nada mais importante para fazer…
Em meio a essa atmosfera, a população simples e pacata aguardava com tranqüilidade a sucessão do velho rei, pois percebia no poderoso governador da província mais rica do país a perfeita continuidade do reinado anterior. Apenas os insuportáveis professores tinham a absurda petulância de criticar as ações do rei e das províncias.
Desequilibrados, na cruel tentativa de macular o manto provincial, diziam que os livros distribuídos aos estudantes apresentavam erros grosseiros e tinham uma linguagem inadequada aos estudantes, com o mesmo despropósito com que apontavam falhas na maneira como as crianças eram educadas por suas famílias.
Mas, ainda sim a atmosfera era bucólica e tranqüila, pois a maioria da população, feliz com a comida que recebia do governo, tinha a certeza de que esses insuportáveis professores seriam severamente punidos por seus atos, logo que o poderoso governador se tornasse o rei.
E assim, viveriam todos felizes para sempre.
Que bela história… pena que no final todos nós pagaremos a conta do rei e do governador poderoso…