Talvez um dos efeitos mais negativos dos doze anos de uma política educacional equivocada seja a desconstrução de um dos principais valores da escola: o estudo.
Sem apologia ao passado e ao seu sistema seriado, percebe-se que como existia uma pressão do sistema sobre os estudantes, quanto a obrigação de apresentar resultados, os alunos que se mantinham na escola demonstravam um melhor rendimento e saíam da escola mais preparados para a competição no mercado de trabalho.
Reconhecendo que essa pressão era exagerada e inflexível, e que as exigências por resultados na forma de nota orientavam a política pedagógica, deixando a aprendizagem em segundo plano, e que grande parte dos alunos que não conseguiam acompanhar o rendimento dos colegas era simplesmente alijada do sistema em vários anos de retenção, não se pode negar que a necessidade de estudar para apresentar esses resultados desenvolvia nos alunos uma qualidade e um senso de responsabilidade que já não existem.
Com a radicalização de uma interpretação da Progressão Continuada, que em sua proposta européia não exclui nem a avaliação e nem a retenção dos alunos com graves defasagens de aprendizagem, criou-se um vício que desestrutura a principal habilidade requerida pela sociedade contemporânea: a capacidade de aprender sozinho pelo estudo.
Como existia uma aprovação automática e as avaliações eram vistas como ferramentas arcaicas de violência simbólica contra os alunos, nossas crianças cresceram acreditando que não precisavam se dedicar ao estudo, pois a aprovação era apenas uma questão de tempo. Mesmo que ultrapassassem o limite legal de faltas teriam ainda a possibilidade de compensa-las de uma forma simples e facilitada.
Essas crianças foram protegidas da violência simbólica da escola seriada e se tornaram adultos com sérias dificuldades de se proteger e reagir às violências da competição no mercado de trabalho. Não é por acaso que atualmente a maior parcela da população economicamente ativa que enfrenta o desemprego tem entre 18 e 25 anos; justamente os frutos da aprovação automática.
Embora o sistema seriado fosse inflexível e invertesse a lógica da aprendizagem pela lógica do resultado, seria mais simples e menos traumático revisa-lo nessa concepção e instituir mecanismos efetivos de recuperação do rendimento. Mas como o Estado precisava de números que comprovassem a redução da repetência e da evasão escolar, deu-se crédito a um pequeno grupo de especialistas em educação, que não estavam habituados à rotina da sala de aula, para que implantassem o que havia de mais moderno sobre educação, sem diálogo com os professores e a sociedade.
Como eram especialistas e entendidos no assunto, não sentiram a necessidade de discutir as adaptações dão sistema à realidade nacional e regional. Muito menos tiveram a percepção de que a estrutura européia de escola integral com até 25 alunos por sala de aula era um dos fundamentos para o sucesso do sistema.
Depois de uma década e com os resultados evidentes, esses especialistas e o Estado que os patrocinou não admitem o erro e direcionam a culpa para o fracasso de uma geração de crianças condenadas a subsistir por programas sociais do governo aos professores.
Certamente os professores são culpados. Em primeiro lugar, não se mobilizaram e permitiram que o sistema fosse implantado sem diálogo e de maneira totalmente autoritária. Alguns, simplesmente se eximiram de suas responsabilidades educacionais e se limitaram a fazer o que era mandado. Outros, percebendo o desastre iminente, abandonaram o ensino público e se dedicaram exclusivamente á rede particular. Muitos, não perceberam que o caminho era perigoso e até acreditaram na boa fé dos seus idealizadores, até porque o sistema seriado era excludente e precisava de reformas.
Em segundo lugar, muitos professores aceitaram bem o rótulo de desvalorizados e sucumbiram à rotina sem investir na sua formação. Permitiram que outros setores da sociedade, sem o preparo e o conhecimento para tanto, palpitassem sobre sua prática pedagógica, até porque não percebiam sua eficácia no sistema implantado. Um médico em seu diagnóstico ou um advogado em seu parecer não sofre o mesmo questionamento de um professor, que é questionado em qualquer reunião de pais.
Por fim, a maioria aproveita os momentos decisivos para iniciar um diálogo de propostas sob sua perspectiva. Preferem se abrigar no fim de semana e se preparar para outra semana difícil, que discutir propostas e soluções que tornariam essas semanas menos difíceis.
Estamos em um momento chave. Em diversas cidades, por exigência do Plano de Desenvolvimento da Educação, estão sendo formadas comissões de professores para debater a educação dos próximos anos. Se iniciarmos uma discussão sobre a educação que queremos e traduzir isso na forma de propostas, poderemos deixar claro nossas posições e conseguir um compromisso formal para sua realização. Até porque esse assunto será um dos focos da campanha presidencial de 2010.