Ao longo de nossa trajetória docente, iniciada em 2006 e divulgada neste blog a partir de novembro de 2007, vivenciamos diversas experiências (boas e ruins) e convivemos com pessoas e estilos muito diferentes. No entanto, a cada dia que passa compreendemos menos o sentido e o significado de nossa profissão.
Antes de mais nada, vale a pena ressaltar que escolhemos estar nessa profissão. Como muitos, cursamos a licenciatura sem muita certeza do que encontraríamos nas salas de aula (particularmente hoje, com um pouco de experiência, acreditamos que a sala de aula é o menor dos problemas…), mas mesmo na penumbra, seguimos em frente.
Na universidade fomos apresentados a uma “realidade” imaginária, que observada pelos telescópios dos “especialistas da educação”, demonstrava um quadro dantesco, no qual conviviam os preceitos teóricos de PIAGET, VYGOTSKY e PAULO FREIRE… com situações de miséria e absoluta falta de recursos. Diante dessa “realidade” discutíamos o papel do professor diante do “processo de ensino-aprendizagem, dentro de uma relação de mediação do conhecimento”.
Paralelamente, enquanto a sociedade brasileira se transformou nos últimos 60 anos, passando de um patriarcado rural em que predominavam o autoritarismo, o compadrio e analfabetismo para uma realidade urbanizada, hedonista e consumista, a escola, como instituição e como estrutura física, praticamente não mudou. Práticas arcaicas como o preenchimento manuscrito de diários de classe, que muitas vezes parecem ser mais importantes aos dirigentes do que a aprendizagem dos alunos, continuam a consumir um tempo precioso, que poderia ser usado com os estudantes.
Embora as demandas sociais colocadas sobre a escola tenham crescido, a postura da escola diante dos problemas ainda se parece com o que se fazia na década de 1970, com a diferença fundamental de que o mundo mudou.
Diante dessa reflexão, o que realmente significa ser professor?
Será que é uma postura de abnegação, na qual uma pessoa vocacionada e truísta renuncia à parte do seu tempo de lazer em nome do planejamento e envolvimento com os problemas da aprendizagem de crianças e adolescentes, aceitando o fato de que a profissão apresenta um retorno financeiro 70% menor do que qualquer outra carreira de nível superior?
Será que é um quebra galho, um trampolim, no qual a pessoa entra sabendo que deve sair em menos de dois anos, até que consiga uma colocação melhor?
Será que é apenas uma escolha profissional que a pessoa faz, sabendo que suas obrigações terminam ao fim do expediente?
Por incrível que pareça não existe uma resposta definitiva para essa pergunta. A definição clássica para o termo Professor é: uma pessoa que ensina uma ciência, arte, técnica ou outro conhecimento. Para o exercício dessa profissão, requer-se qualificações acadêmicas e pedagógicas, para que consiga transmitir/ensinar a matéria de estudo da melhor forma possível ao aluno. Qualificações acadêmicas, no sentido do domínio sobre o conteúdo que leciona e pedagógicas, no que se refere à capacidade de interagir, orientar e transmitir essa conteúdo.
Com o desenvolvimento das tecnologias de informação e o advento da internet, a questão do conteúdo fica numa situação frágil. Numa sala de aula, com um celular, um adolescente pode consultar uma informação específica para fazer um questionamento e se o professor não estiver preparado para responder de maneira satisfatória, o interesse de toda a classe sobre o conteúdo fica ameaçado.
Logicamente, não é possível que o professor saiba tudo, mas a essência do conhecimento ensinado não pode ser a mesma da década de 1970. Nos dias de hoje, o saber pensar, o conceito, o raciocínio e a compreensão de causas e consequências sobre o assunto abordado são mais importantes que a memorização de regras, nomes, datas e fórmulas. Por mais que a rede disponibilize o conhecimento, a adaptação do discurso e da linguagem para que esse conhecimento seja compreendido é o que reforça importância do professor, mas para isso o professor precisa estar atualizado. Não adianta discutir o esperar que o Estado, Município ou escola promovam essa atualização. Assim como os bons médicos continuam estudando e pesquisando os assuntos da sua especialidade, os bons professores precisam fazer o mesmo, apesar das vicissitudes.
Nesse sentido, a capacidade de interagir com o estudante é fundamental.
Por mais que se tenha domínio sobre o assunto, a falta de tato e de empatia com o público determina o fracasso na aprendizagem. Crianças e adolescentes são seres em formação e, especialmente nos dias de hoje, dentro de um choque de gerações.
A linguagem, os valores, as perspectivas, as crenças e as posturas diante da vida são diferentes e por mais que entendamos que estão erradas, temos que lidar com isso e procurar convencer, pois o espírito da época é outro.
Se a pessoa não tem facilidade com o lidar com crianças pequenas, certamente terá dificuldades para lidar com alunos dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, assim como a linguagem utilizada com esses alunos simplesmente não funciona com o Anos Finais do Ensino Fundamental. Com o Ensino Médio a coisa é ainda mais traumática, pois a submissão dos estudantes aos valores estimulados pelas propagandas e pelo consumismo comprometem o convencimento.
Então, diante do quadro negro, contando com poucos recursos e dentro de uma estrutura anacrônica, que não acompanhou as transformações da sociedade, cabe ao professor professar. Ensinar o que sabe, declarar publicamente suas convicções e manter um padrão de conduta.
Professor não é uma pessoa digna de pena. É antes de tudo um agente público de transformação, que como tal deve mobilizar seu conhecimento e convicção para a transformação da realidade. A começar pela sua.
Ninguém respeita quem não se respeita. A desvalorização dos professores pela sociedade brasileira é uma consequência da desvalorização dos professores por si próprios. Seja pela falta de mobilização, seja pela falta de reflexão, seja pela falta de uma compreensão de categoria. Sem contar a desvinculação da figura do professor com ideia de conhecimento.
Ortografia, interpretação textual, reflexão e raciocínio lógico são competências esperadas de qualquer professor e quando não são percebidas em suas manifestações (como nos comentários de blogs e redes sociais), reforça-se a ideia de que o professor não tem utilidade numa sociedade em que o acesso à informação está na ponta dos dedos.
É preciso valorizar o que somos e o que fazemos, professando nossas convicções e buscando entender as demandas dos estudantes, para que compreendamos o sentido e o significado de nossa profissão. Sem isso, seremos apenas um suporte para o giz.
É isso, professor que não professa sempre tropeça. Em grande número, professor não dá aula por vocação, mas, para ganhar os míseros tostões do Ensino. São, em geral, despreparados, pouco se interessando pelo crescimento profissional. Não lecionam com amor; bem poucos se incomodam com o avanço do ser humano, quando na realidade nossa função precípua de ensinantes é proporcionar ao aprendente seu desenvolvimento cultural, para que no futuro possam ser felizes.
Nem bem cheguei na minha área (pedagogia), e ja sou desrespeitada.
Aqui em Sorocaba fizeram um contrato de estagio “temporario”, para auxiliarmos os alunos da 5º ano, apenas para o Saresp e prova Brasil.
Tanto que o nosso contrato terminou exatamente no dia 30/11, apenas para nós o contrato não foi renovado.
Apesar de tudo ainda amo essa profissão, e espero dar o meu melhor.
O que dizer, professor temporário?
Parabéns pela clareza de raciocínio e destreza na exposição de suas ideias.
“O que devo pretender não é a neutralidade da educação, mas o respeito, a toda prova, aos educandos, aos educadores. O respeito por parte da administração pública ou privada das escolas. É por isto que devo lutar sem cansaço. Lutar pelo direito que tenho de ser respeitado e pelo dever que tenho de reagir a que me destratem. Lutar pelo direito de ser você mesmo e nunca, jamais, lutar por essa coisa impossível, acinzentada e insossa que é a neutralidade. Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? “Lavar as mãos” em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele.” (Paulo Freire)
Vamos à luta!!
Gostei do texto, e das claras esplicações que se deu aos vários fatores citados. Infelizmente é a realidade. Como aluna acho essencial que o professor interaja com seus alunos e conheça um pouco da sua realidade. As vezes um aluno vai mal na escola e o professor acha que é de propósito, mas mal ele sabe que este aluno tem problemas em casa de altíssima magnitude. Espero que esta situação melhore, para os profesores e para nós alunos que realmente querem aprender.
Concordo em partes com você Juliane, pois se o aluno tem problemas de “altíssima magnitude”, onde estão os psicólogos, os agentes sociais e tantos outros profissionais que podem ajudar esse aluno. Agora não cabe ao professor que tem pouco tempo e muito aluno em sala buscar soluções pra esses problemas, encaminhamos e não temos respostas. Ai é o seguinte aprova pra ter índice de aprovação, que é o que importa pro governo e pra maioria das famílias.
Realmente respeito os que tem a vocação e a determinação de fazerem o bem mesmo que receber muitos maus(pagamentos, vale coxinha, sem plano de carreira), só que isso não dá o direito de se achar mais preocupado com os alunos do que os outros, sou um biqueiro na educação sim e sempre ou ser, pra mim ser professor hoje é bico e tenho direito de expressar isso sim, dou de acordo com que eu ganho, se tem uns santinhos por ai, parabéns siga em frente continue acreditando na cidadania e ganhando pouco, isso vai de cada um se estou fazendo bico é porque o excelente governo que existi permiti, eu reprovei a 6 serie 3 vezes nunca gostei de estudar, mas pelo menos trabalho dois dia na escola e tiro meus 600,00 e pouco tá bom pra um bico.